Algo lhe doía. Não sabia o que, não sabia aonde, não sabia por que. O que sabia é que de fato doía, e era assim desde sempre. As vezes se esquecia dessa dor, e a vida passa sem grandes acontecimentos. As vezes algo a lembrava da existência daquela dor.
E podia ser qualquer coisa a desencadear a coisa doída. Tinha dias que era uma palavra que despertava a dor (desperta-dor?), as vezes era um gesto, uma cena, um acontecimento. Aí respirava bem fundo e sentia que o ar lhe faltava. Como se a dor tivesse tomado o vazio do peito dela, roubando o lugar do oxigênio que lhe era necessário para respirar. Respirava fundo, várias vezes, e algo lhe distraía, tirando-a daquele desconforto, que era quase um deleite; tirando-a daquele lugar que era perceber que a dor existia. Mas essa dor... - É dor de que? - perguntava-se, intrigada.
Foi a um psiquiatra, que receitou-lhe antidepressivo. Foi a um gastro, que recomendou-lhe fazer uma endoscopia. Foi a um pneumologista, que lhe pediu um teste ergométrico. Foi a um cardiologista, que a encaminhou para um exame cardiovascular. Foi a um psicólogo, que procurou um motivo para explicar a dor da moça.
O fato é que doía e, apesar de não saber o que era, intuía que não era ferida no estômago ou falta de serotonina no cérebro. Aliás, desconfiava que talvez nem fosse uma dor. Desde pequena lhe diziam que a dor era ruim, mas sabia que aquela não era. Ao menos não era algo do qual ela quisesse se livrar. A curiosidade lhe intrigava mais do que a dor. O que é que doía? Era curiosa e queria saber.
Pensava, as vezes, que essa dor, nem dela era. Parecia mais que era “dor de mundo”, a qual havia tomado emprestada. Dor de criança sem beijo de mãe para dormir a noite, dor de cachorro com a pata quebrada tentando atravessar a avenida, dor de bebê com cólica e sem carinho, dor de velhinho que não tem onde passar o natal, dor de gente que tem câncer terminal, dor de existir, dor de viver, dor de morrer. Dor de consciência, dor de lucidez. - Pode? - Pensava ela.
E aí vinha uma vontade súbita de salvar o mundo, acompanhada de uma espécie de culpa por ser alegre. - Como é que eu tenho coragem de ser tão feliz num mundo tão sofrido? – Pensava. Mas sabia que isso era só pra distrair. Não havia culpa. O que havia era uma questão. Trechos de livros de Clarice Lispector a perseguiam obsessivamente: “Viver não é lógico” ou “Ser feliz é para se conseguir o quê?”. E na ausência de respostas que fizessem os pensamentos pararem, na ausência de certezas absolutas, a dor aparecia, bela e exuberante.
Junto com a dor, aparecia então, o desejo de fazer a sua vida ilógica, a sua pequeneza “valer a pena”, como ouvia dizer. Aí fazia trabalho voluntário, doava sangue, medula óssea, cuidava de cães e dizia que era para o outro. Mas no fundo sabia que aquilo tudo era para si mesma. Para poder criar espaço no peito para o ar entrar. Porque precisava respirar. Porque era assim que sentia que a vida passava pelo seu corpo.
Ana S. S. Em: http://significantess.blogspot.com/

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