quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O amor demanda o amor


Há quem diga que o "verdadeiro amor é aquele que resiste a tudo".
Discordo.

Para começar, "Verdadeiro amor" é um pleonasmo tão escrachado quanto "subir para cima", ou "descer para baixo". Se é amor, há que ser verdadeiro, senão, trata-se de qualquer outra coisa, menos de amor
Além disso, aquilo que "resiste a tudo", chama-se diamante, aço, irídio, transtorno do amor...mas não "amor", puro e simples.
O amor é uma experiência humana bastante difícil de satisfazer.

Amar é dar ao escolhido uma parte de si, querer para si uma parte do outro. E quando se trata de partes nossas, somos muito exigentes.
O amor é coisa que requer cuidado, requer vigília, requer provas para continuar existindo. Provas de amor.
Lacan disse: "amar é dar o que não se tem a quem não o é". Explico.

Exige-se do filho comportado em casa e distraído na escola, que tenha boas notas na escola; exige-se do filho que tem boas notas na escola e que só come arroz em casa, que coma verduras.

Exige-se do namorado que sempre dá flores, que escreva um cartão; exige-se do namorado que escreve cartas românticas, que leve para viajar.

Exige-se da moça recatada, que as vezes coloque um decote; exige-se da moça ousada nas roupas, que se cubra um pouco mais.

O amor pede ao outro aquilo que ele não tem. Ora, que graça tem ser apenas mais um amor? O ser humano quer se sentir único e especial. Quer uma "grande coisa".

Ganhar um presente caro de alguém rico é coisa pequena. Ganhar flores do cara que trabalha na floricultura "não tem nada de mais".

São as demandas de amor. Demandas essas que jamais poderão ser completamente satisfeitas, e que por isso, dão espaço para outras contruções, outros pedidos, outras exigências.

Todavia, essa demanda será sempre fustrada, pois não se pode satisfazer ao outro infinitamente. Seria a morte. Na impossibilidade de respondermos às demandas do outro, simetricamente, contentamos-nos com uma satisfação parcial.

É o que sustenta a continuidade do amor. É porque o beijo perfeito ainda não aconteceu, que se quer beijar mais e mais, é a declaração de amor mais bonita que ainda não foi dita, que permite que se continue a escrever, aperfeiçoar e declarar. É a falta que nos permite prosseguir.

O amor demanda o amor.
Ele não deixa de demandá-lo.
Ele demanda mais...ainda.

(Lacan)

Ana S. S. EM: http://significantess.blogspot.com/

Discutindo a Relação

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Uma pesquisa diz que quando as mulheres disparam a falar, os homens desligam.
Outra pesquisa diz que, na relação sexual, ao atingir o orgasmo, as mulheres se desligam de todos os sentidos, enquanto os homens, não. Ainda podem estar atentos a outra coisa.
Que difícil esse encontro entre os sexos! Quando um está, o outro já não está mais. Não é preciso apenas que um corpo esteja ali, para que se esteja mesmo ali. É preciso muito mais do que isso. O amor exige isso.
Acredito que a maior parte das brigas entre casais (talvez das brigas entre pessoas) baseia-se nesses desentendimentos, nesses desencontros. Queria que fulano estivesse aqui, e ainda que esteja aqui, não está aqui!
Explico: É como a internet, quando cai a conexão. Você pode ter o computador em suas mãos, o internet Explorer e o MSN aberto, mas não é o suficiente. É preciso que se tenha exatamente isso: conexão.
Lacan disse que “a relação sexual não existe”. É uma expressão que ele utilizava para provocar. Afinal de contas, o sexo existe, sim. Mas não a relação sexual. Que diferença faz?
Ora, não é ter o computador que nos dá a garantia da conexão. Ainda que hoje em dia tenhamos wireless, e não mais cabos, ainda assim há algo que pode escapar.
Mesmo na relação sexual mais bonita, mais perfeita, mais excitante, em que os dois chegam ao orgasmo juntos, no mesmo momento, ainda assim é preciso perguntar: - Foi bom pra você? E aí, é preciso acreditar na resposta do outro. Não se pode ter certeza. Não podemos sentir com o corpo do outro, apenas com o nosso.
Ao final, cada um continua só, com a sua carne, com o seu corpo. Sem a tampa da panela, sem a sua alma gêmea, sem a sua cara metade. Ufa! Somos faltantes sozinhos

Ana S. S. EM: http://significantess.blogspot.com/

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Porque precisava respirar


Algo lhe doía. Não sabia o que, não sabia aonde, não sabia por que. O que sabia é que de fato doía, e era assim desde sempre. As vezes se esquecia dessa dor, e a vida passa sem grandes acontecimentos. As vezes algo a lembrava da existência daquela dor.
E podia ser qualquer coisa a desencadear a coisa doída. Tinha dias que era uma palavra que despertava a dor (desperta-dor?), as vezes era um gesto, uma cena, um acontecimento. Aí respirava bem fundo e sentia que o ar lhe faltava. Como se a dor tivesse tomado o vazio do peito dela, roubando o lugar do oxigênio que lhe era necessário para respirar. Respirava fundo, várias vezes, e algo lhe distraía, tirando-a daquele desconforto, que era quase um deleite; tirando-a daquele lugar que era perceber que a dor existia. Mas essa dor... - É dor de que? - perguntava-se, intrigada.
Foi a um psiquiatra, que receitou-lhe antidepressivo. Foi a um gastro, que recomendou-lhe fazer uma endoscopia. Foi a um pneumologista, que lhe pediu um teste ergométrico. Foi a um cardiologista, que a encaminhou para um exame cardiovascular. Foi a um psicólogo, que procurou um motivo para explicar a dor da moça.
O fato é que doía e, apesar de não saber o que era, intuía que não era ferida no estômago ou falta de serotonina no cérebro. Aliás, desconfiava que talvez nem fosse uma dor. Desde pequena lhe diziam que a dor era ruim, mas sabia que aquela não era. Ao menos não era algo do qual ela quisesse se livrar. A curiosidade lhe intrigava mais do que a dor. O que é que doía? Era curiosa e queria saber.
Pensava, as vezes, que essa dor, nem dela era. Parecia mais que era “dor de mundo”, a qual havia tomado emprestada. Dor de criança sem beijo de mãe para dormir a noite, dor de cachorro com a pata quebrada tentando atravessar a avenida, dor de bebê com cólica e sem carinho, dor de velhinho que não tem onde passar o natal, dor de gente que tem câncer terminal, dor de existir, dor de viver, dor de morrer. Dor de consciência, dor de lucidez. - Pode? - Pensava ela.
E aí vinha uma vontade súbita de salvar o mundo, acompanhada de uma espécie de culpa por ser alegre. - Como é que eu tenho coragem de ser tão feliz num mundo tão sofrido? – Pensava. Mas sabia que isso era só pra distrair. Não havia culpa. O que havia era uma questão. Trechos de livros de Clarice Lispector a perseguiam obsessivamente: “Viver não é lógico” ou “Ser feliz é para se conseguir o quê?”. E na ausência de respostas que fizessem os pensamentos pararem, na ausência de certezas absolutas, a dor aparecia, bela e exuberante.
Junto com a dor, aparecia então, o desejo de fazer a sua vida ilógica, a sua pequeneza “valer a pena”, como ouvia dizer. Aí fazia trabalho voluntário, doava sangue, medula óssea, cuidava de cães e dizia que era para o outro. Mas no fundo sabia que aquilo tudo era para si mesma. Para poder criar espaço no peito para o ar entrar. Porque precisava respirar. Porque era assim que sentia que a vida passava pelo seu corpo.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Ainda é preciso ler Freud?



Fernando Aguiar

Fora do círculo familiar, os 50 anos de Freud foram festejados apenas pelo pequeno grupo de psicanalistas vienenses que se reuniam em sua casa todas as quartas-feiras desde o outono de 1902. A ocasião era propícia a comemorações: não sendo mais o único analista, sua psicanálise já ultrapassara os limites de Viena – a conquista dos “arianos” de Zurique neutralizara a vil acusação de “ciência judia”. Vivia-se a fase áurea da clínica psicanalítica e, em termos de publicações de fôlego, jamais haveria para Freud ano igual ao anterior (1905). Além do livro sobre os chistes e do “Caso Dora”, houve os Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, com o qual ele adicionara ao discurso do desejo (1900) o discurso da pulsão, definindo categoricamente os dois eixos centrais de sua investigação metapsicológica.

Como presente de aniversário, os alunos ofereceram-lhe um medalhão, realizado pelo escultor K. M. Schwerdtner. Sobre uma face, fora gravado o perfil de Freud, e sobre a outra, a cena de Édipo em frente à Esfinge. Em volta do desenho, um verso de Édipo Rei: “Aquele que resolveu o famoso enigma e que foi um homem de enorme poder”. Lendo a inscrição, Freud teria empalidecido: “Parecia ter visto um fantasma”, escreveu E. Jones. Depois de P. Federn admitir ser o autor da escolha da citação, Freud, agitado, contou que, quando jovem estudante de medicina na Universidade de Viena, costumava olhar os bustos dos antigos professores, imaginando que um dia poderia estar entre eles: o seu traria exatamente a mesma citação de Sófocles inscrita no medalhão com o qual acabava de ser honrado.

A posição de marginalidade e ruptura da psicanálise

Desse episódio, apenas a segunda parte do sonho diurno de Freud materializou-se: afinal, como o Édipo da mitologia, ele decifrou, no plano da cultura, o próprio enigma edipiano, adentrando os mistérios da sexualidade humana. Quanto a figurar entre pares, nem seria o caso, pois de fato jamais fora médico; foi um psicanalista e um magnífico professor. Mas, na Universidade de Viena, seu estatuto não passou de um professor extraordinarius, que, no regime acadêmico da época, designava quem se encarregava de cursos que não constavam do currículo oficial obrigatório.

Esse caráter marginal permanece também o destino da psicanálise, e mesmo seu grande trunfo ou talvez condição de sobrevivência. Na academia, em particular, a psicanálise não deve estar no centro de uma formação, mas exterior aos outros domínios. O próprio Freud assumia uma incompatibilidade com toda sorte de “existência oficial” e demandava “independência em todas as direções”. O professor francês Jean Laplanche afirma que o analista [e a psicanálise] nasce e desenvolve-se apenas na marginalidade e na ruptura, e não pode garantir-se senão preservando todo um jogo de extraterritorialidades, em todos os níveis: marginalidade do tratamento em relação às instâncias da vida cotidiana, da análise pessoal em relação aos requisitos das sociedades de analistas, do exercício da análise em relação às profissões reconhecidas (médico ou psicólogo), das instituições analíticas em relação às instituições e aos reconhecimentos oficiais etc. “Como analistas, como pesquisadores e como universitários, afirmamos (…) que a experiência analítica constitui um campo epistemológico específico e autônomo”. A contrapartida é que ela não seja propriedade privada de um indivíduo ou de uma instituição.

É que ao fim e ao cabo, como teoria do inconsciente, a psicanálise acabaria por se tornar indispensável para todas as ciências que se ocupam da gênese da civilização humana e de suas grandes instituições como a arte, a religião ou a ordem social. “Creio ter introduzido alguma coisa que ocupará constantemente os homens”, escreveu Freud a Binswanger, em 1911.

Não há qualquer anseio imperialista na pretensão freudiana. Se a disciplina por ele fundada deve interessar à psicologia, às ciências da linguagem, à filosofia, à biologia, à história da civilização, à estética, à sociologia e à pedagogia, isso não faz mais do que prolongar o movimento mesmo de seu próprio pensamento, “interessado” em todas essas disciplinas, conforme nos explica S. Mijolla-Mellor (Recherches en Psychanalise, 2004). Desse ponto de vista, antes de interessar a outros campos do saber ou da cultura, é a própria psicanálise que tem interesse nesses campos, sendo eles parte constitutiva dela própria. Quanto ao interesse das outras disciplinas pela psicanálise, é certo que tal movimento não elimina o fato da resistência – e esta diz respeito à vexação psicológica dos homens diante de seus desejos inconscientes tais como apontados pela invenção freudiana. Na fundação da Associação Psicanalítica Internacional, em 1910, Freud anunciou aos colegas: “Os indivíduos aos quais fazemos descobrir o que recalcam experimentam hostilidade a nosso respeito; não podemos esperar uma amabilidade simpática da sociedade para com aqueles que desvelam impiedosamente seus defeitos e insuficiências”. Em carta a Arthur Schnitzler, ainda escreveria que a psicanálise não é “um meio de se fazer amar”.

Devemos esperar, por isso, de tempos em tempos, vilanias tais como a infame e medíocre compilação de críticas publicada na França, em 2005, com o nome de O Livro Negro da Psicanálise, no qual Freud é tratado como falsário, trapaceiro e mentiroso (tal como faz agora, em 2010, Michel Onfray em O Crepúsculo de um Ídolo: a Fabulação Freudiana). Costuma-se aproveitar essas ocasiões para mais uma vez se falar em “crise da psicanálise”, o que Jacques Lacan (1901-1981), já em 1974, refuta com vigor, em termos definitivos: “A crise (…) não existe (…).” A psicanálise ainda não encontrou seus próprios limites. Há muito que descobrir na prática e no conhecimento. Em psicanálise não há solução imediata, mas apenas a longa e paciente busca das razões”. Além disso, há Freud, arremata Lacan, “que ainda não compreendemos inteiramente”.


FONTE: http://revistacult.uol.com.br/home/2010/06/ainda-e-preciso-ler-freud/

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Amor


"A pessoa do amado é como um cabide no qual se penduram as nossas pulsões, até cobri-los com inúmeras camadas de afetos." (Nasio, o livro da dor e do amor, p. 60)

domingo, 25 de julho de 2010

"Hamlet não tinha complexo de Édipo, mas Freud com certeza tinha um complexo de Hamlet e a psicanálise talvez não seja outra coisa senão um complexo de Shakespeare." (Harold Bloom)
"A psicanálise foi criada para capacitar o homem a aceitar a natureza problemática da vida sem ser derrotado por ela, ou levado ao escapismo. A prescrição de Freud é de que só lutando corajosamente contra o que parecem probabilidades sobrepujantes o homem pode ter sucesso em extrair um sentido da sua existência." (Bruno Bettelheim)

A Síntese Perfeita



"Sou tão misteriosa que não me entendo" (Clarice Lispector)

sábado, 24 de julho de 2010

Sintoma


Até cortar os próprios pulsos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta o nosso edifício inteiro. (Clarice Lispector)

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Ultrapassar-se

"Não gosto do que acabo de escrever - mas sou obrigada a aceitar o trecho todo porque ele me aconteceu. E respeito muito o que eu me aconteço. Minha essência é inconsciente de si própria e é por isso que cegamente me obedeço". (Clarice Lispector)